Volume 16, Number 2
Artigo de Revisão
Intolerância ao Leite de Vaca e Constipação Crônica
em Crianças
Maria Eugênia Farias Almeida Motta, MD
Universidade Federal de Pernambuco, Departamento Materno-Infantil, Mestrado em
Pediatria
Address: R. Alves Guimarães, 866/22 Jardim América, 05410-001
São Paulo SP Brazil
Resumo
Constipação crônica é um sintoma, que pode representar a
manifestação de várias doenças, orgânicas e funcionais. Embora as doenças funcionais
sejam as mais comuns, algumas doenças orgânicas podem ocorrer. Constipação devido à
intolerância ao leite de vaca foi demonstrada por diversos autores, especialmente em
crianças com falha ao tratamento com laxantes e dieta rica em fibra. Nesses casos,
constipação pode ocorrer apenas devido à inflamação causando defecações dolorosas.
No entanto, evidências na literatura estabecem o fato de uqe inflamação da mucosa
devido à mecanismos imunes alteram a motilidade intestinal. Alguns exames laboratoriais
podem ser feitos para confirmar intolerância ao leite de vaca e alteração da motilidade
intestinal. O tratamento é uma dieta isenta de leite de vaca.
Palavras chave: constipação, intolerância ao leite de vaca,
inflamação, alteração da motilidade intestinal.
Introdução
A constipação crônica é um sintoma cujo conceito engloba a
dificuldade para evacuar, o intervalo entre as defecações e o diâmetro e a
consistência das fezes,1 caracterizando-se por eliminação dolorosa ou com
esforço, de fezes de consistência endurecida e ressecadas, com diâmetro aumentado ou em
cíbalos, e freqüência de defecações inferior à três vezes por semana, que
prolonga-se por mais de 30 dias, acompanhadas ou não por escape fecal.2-4
A prevalência do sintoma é elevada. Estima-se que cerca de 36% das
crianças que procuram os ambulatórios gerais têm constipação crônica, embora não
seja esse o motivo da consulta.5 Nos ambulatórios de gastroenterologia
pediátrica, é um dos diagnósticos mais comuns, em torno de 10 a 20% dos pacientes.6
Estudos de base populacional também identificaram o sintoma: cerca de 28% nos escolares
entre seis e 16 anos em Botucatu-SP7 e de 8 a 10 anos no Rio de Janeiro-RJ8;
17, 5% nos menores de 11 anos residentes em uma comunidade de baixa renda no Recife-PE.3
A diversidade metodológica adotada, incluindo a origem do paciente (base hospitalar ou
populacional), a faixa etária selecionada e o critério diagnóstico proposto, dificulta
a comparação entre os vários estudos, embora permita determinar sua magnitude.
Foi observado por alguns autores que o início da constipação é mais
freqüente na faixa etária de lactente,2,5,9,10 período no qual a
prevalência também é mais alta, comparando-se aos escolares e pré-escolares, que
apresentam um declínio discreto na freqüência do sintoma.10
O desmame mal conduzido, tendo como base alimentar mingaus concentrados
em detrimento dos alimentos sólidos e ricos em fibras, pode contribuir para o
aparecimento tão precoce da constipação.10 Por outro lado, história
familiar positiva para constipação crônica é comum,5,10 sugerindo uma base
constitucional ou familiar, possivelmente com alteração na motilidade intestinal,11,12
o que talvez, aliado a uma dieta pobre em fibras, promoveria a manifestação do sintoma.
Porém, nos lactentes (sem aleitamento natural) e pré-escolares, cuja alimentação
baseia-se no consumo de leite de vaca e preparações contendo leite de vaca,13
é provável que a "alergia" ao leite seja um fator contribuinte para a
instalação da constipação.
Em 90 a 95% dos casos, a origem da constipação crônica é funcional,
porém causas orgânicas também podem ser detectadas, encontrando-se, entre essas, a
intolerância à proteína do leite de vaca, de acordo com a classificação da
Subcomissão de Constipação da Sociedade Norte Americana de Gastroenterologia e
Nutrição Pediátrica.14
A intolerância à proteína do leite de vaca é uma situação que
afeta principalmente crianças nos três primeiros anos de vida, manifestando-se por
diarréia, vômito, dor abdominal e déficit de crescimento.15 Muitos outros
sintomas, por vezes infreqüentes, têm sido atribuídos à intolerância à proteína do
leite de vaca, embora sem evidências objetivas de uma relação causa-efeito.
Existem relatos na literatura de séries de casos de crianças com
intolerância à proteína do leite de vaca cuja manifestação clínica gastrintestinal
era constipação, assim como de casos isolados de constipação que resolveram apenas
após a retirada do leite de vaca da dieta.
Em 1954, Clein16 descreveu as características clínicas de
206 crianças com intolerância à proteína do leite de vaca, das quais 6% apresentavam
constipação caracterizada por fezes endurecidas e de diâmetro aumentado, dor à
defecação e tenesmo, e que melhoraram com a dieta isenta de leite de vaca. Buisseret17
encontrou dor abdominal associada com constipação ou diarréia em 84% dos casos, sendo
que, nessa série, constipação foi mais comum do que diarréia. Chin et al15
e McGrath18 relatam dois casos de crianças que iniciaram constipação quando
eram lactentes, sem resposta efetiva à dieta rica em fibras e ao uso de laxantes, mas que
normalizaram o hábito intestinal após a eliminação do leite de vaca da dieta.
Na década atual, alguns autores têm se empenhado em demonstrar
constipação crônica como um sintoma de intolerância à proteína do leite de vaca,
tentando associar a história clínica, os testes imunológicos e a resposta ao
desencadeamento com leite de vaca.
Em 1995, Iacono et al19 deram início à nova fase de
estudos sobre o tema. Os autores avaliaram 27 crianças menores de três anos com
constipação crônica idiopática. Todas fizeram uma dieta isenta de leite de vaca por um
mês, observando-se aumento na freqüência das defecações, que ocorriam sem dor,
eliminação de fezes pastosas e cura das fissuras anais, do edema e do eritema anais e
perianais em 78% dos casos (21/27). Nestas 21 crianças, foi feito desencadeamento, com o
quadro clínico anterior aparecendo 48 horas após a reintrodução do leite de vaca.
Seqüência idêntica ocorreu após outro período sem leite de vaca, seguido por novo
desencadeamento. Apenas 19% dos casos (4/21) tinham história prévia (diarréia e
dermatite atópica) e sintomas atuais (dermatite atópica e broncoespasmo) associados com
intolerância à proteína do leite de vaca. Os dados laboratoriais pré-desencadeamento
também demonstraram a ocorrência da constipação como sintoma de IPLV: de IgG anti-b -lactoglobulina (8/21), de IgE sérica total (7/21 = todos com IgE específica positiva) e de eosinófilos (6/21).
Nesse estudo19, os autores chegaram a duas conclusões
importantes:
1a) Em uma criança com constipação e positividade daqueles exames
laboratoriais, é possível o diagnóstico de intolerância à proteína do leite de vaca;
no entanto, em algumas crianças que tiveram resposta à dieta isenta de leite de vaca, os
exames foram normais, sendo importante investigar quais os mecanismos imunes envolvidos.
2a) Biópsia retal foi realizada em apenas duas crianças que curaram
com a dieta, mostrando uma proctite inespecífica, com infiltrado monocitário, sem
eosinófilos; assim, o modelo histológico pode diferir dependendo do mecanismo
imune que causa a proctite secundária à intolerância à proteína do leite de vaca.
Posteriormente, em 1998, o grupo de Iacono20 estudou 65
crianças menores de seis anos com constipação crônica e tratamento mal sucedido com
laxantes, realizando dois desencadeamentos duplo-cego.
1o desencadeamento: 1a fase: um grupo com
leite de vaca e outro com fórmula de soja, por duas semanas, seguindo-se uma semana com
dieta livre; 2a fase: troca dos grupos da 1a fase, por duas
semanas. Considerou-se como resposta clínica, a presença de 8 ou mais defecações
durante qualquer fase do desencadeamento. O resultado observado foi: na 1a
fase, ausência de resposta nas 33 crianças do grupo com leite de vaca e resposta em 21
das 32 crianças do grupo com fórmula de soja; 2a fase, resposta em 23 das 33
crianças do grupo com fórmula de soja e ausência de resposta nas 32 crianças com leite
de vaca.
Os 44/65 (68%) pacientes com resposta à dieta isenta de leite de vaca
fizeram o 2o desencadeamento (duplo-cego, controlado por placebo
fórmula de soja), observando-se ausência de sintomas no grupo que fez fórmula de soja e
sintomas no grupo que fez leite de vaca, que desapareceram com a introdução da fórmula
de soja.
As características clínicas e os resultados dos exames laboratoriais
foram idênticos aos do estudo anterior, ou seja, alterações presentes principalmente
nas crianças com resposta à retirada do leite de vaca. O teste cutâneo com antígenos
do leite de vaca foi positivo em 10/44 pacientes. À biópsia retal, observou-se: células
epiteliais mais curtas (aspecto cubóide), inflamação caracterizada por linfócitos e
eosinófilos intra-epiteliais e infiltração da lâmina própria por eosinófilos,
principalmente nas crianças com resposta clínica (44/65). Em 20 crianças com resposta
clínica, foi realizada outra biópsia retal durante dieta isenta de leite de vaca,
constatando-se melhora do aspecto histológico em 12 e normalização em 8 delas.
Os autores20 chegaram às seguintes conclusões:
1a) O desencadeamento duplo-cego com leite de vaca confirmou que
constipação foi um sintoma de intolerância à proteína do leite de vaca.
2a) Os testes imunológicos também demonstraram essa relação, com o
mecanismo mais comum, mas não exclusivo, sendo mediado por IgE.
3a) Devido à alta freqüência de fissuras anais graves (40 das 44
crianças com resposta), que reapareciam com a introdução do leite de vaca e antes do
início da constipação, a hipótese é de que o ciclo dor-retenção-dor seja um dos
mecanismos causando constipação na intolerância à proteína do leite de vaca.
Outros dois grupos mostraram resultados semelhantes. Daher et al21
observaram cura em sete dos 25 pacientes com constipação (28%) que fizeram dieta isenta
de leite de vaca por quatro semanas, dos quais cinco tinham níveis elevados de IgE
sérica e dois, teste cutâneo positivo e níveis detectáveis de IgE específica. No
desencadeamento aberto realizado em cinco pacientes, observou-se reaparecimento da
constipação. Em duas crianças menores de um ano foi realizada biópsia retal, que
mostrou histologia compatível com colite alérgica. Shah et al22
acrescentaram um outro dado: o estudo do trânsito intestinal com marcadores radiopacos
antes da dieta isenta de leite de vaca em 14 dos 20 pacientes constipados que tinham
atopia, evidenciando que o atraso nas defecações era uma conseqüência da retenção
fecal no reto; quatro crianças repetiram o exame após a dieta de exclusão, com
trânsito intestinal normal. Três daquelas 14 crianças fizeram manometria anorretal,
encontrando-se um aumento do tônus do esfíncter anal external. Nas seis crianças que
realizaram biópsia retal, foi observado infiltrado eosinofílico na lâmina própria.
Qual seria o possível mecanismo imune?
Os estudos apresentados anteriormente demonstraram melhora dos sintomas
da constipação após a dieta de exclusão do leite de vaca nos pacientes com e sem
aumento de IgE, mas o mecanismo imune exato ainda não foi elucidado.
As reações alérgicas aos alimentos podem ser divididas naquelas de
início rápido (tipo I ou hipersensibilidade imediata) e de início lento (tipo IV ou
hipersensibilidade tardia). Os dois tipos de reação podem ocorrer isolados ou
concomitantes. A primeira caracteriza-se por detecção de resposta IgE, enquanto a de
início lento é quase certamente mediada por células T, sendo a detecção de anticorpo
um reflexo secundário da lesão imune.23 Assim, crianças com baixos níveis
de Ig podem ter resposta alérgica significante sem anticorpo detectável.
Os mastócitos da mucosa estão distribuídos por todo o trato
intestinal. Na reação tipo I, o alérgeno reage com a IgE ligada aos mastócitos
previamente sensibilizados, induzindo à liberação de mediadores inflamatórios tais
como prostaglandinas, leucotrienos, serotonina e histamina. Essas células também liberam
citocinas reguladoras como as interleucinas (IL). A IL-4 é um estímulo para a resposta
dos linfócitos Th2, que são células ativadoras de mastócitos e eosinófilos e
indutoras da síntese de IgE, por auxiliarem na resposta dos linfócitos B (imunidade
humoral). A IL-5 tem efeito sobre os eosinófilos, estimulando o seu crescimento e
diferenciação. A IL-6 e o fator de necrose tecidual a (TNFa ) são citocinas quimiotáticas que recrutam e/ou influenciam a
função de neutrófilos, eosinófilos, basófilos, linfócitos Th1 e macrófagos,
aumentando a resposta inflamatória.24,25
A reação tipo IV é mediada por linfócitos Th1 e macrófagos,
caracterizando-se pela infiltração dessas células no local onde o antígeno está
presente. Os macrófagos são células fagocitárias, apresentadoras de antígenos aos
linfócitos T e podem exercer quimiotaxia. Eles produzem IL-2 que auxilia na resposta Th1
(imunidade celular).25,26
Vários fatores contribuem para o predomínio de uma resposta Th1
(celular) ou Th2 (humoral): propriedades e dose do antígeno, local da exposição e
manutenção da resposta imune.27
Firer et al28 estudaram 47 crianças de 4 a 66 meses
com intolerância à proteína do leite de vaca comprovada, e classificaram esses
pacientes em três grupos, de acordo com a resposta ao desencadeamento com LV: reatores
imediatos (< 45 minutos) com níveis de IgE mais elevados que os outros grupos;
reatores intermediários (1 20 horas) e tardios (> 20 horas) alguns
pacientes com altos níveis de IgE. Essa observação permitiu especular que, na forma
tardia, haja uma interação das respostas imunes mediadas por IgE e por células:
primeiro, haveria uma resposta de hipersensibilidade mediada por IgE, assintomática, e a
persistência do antígeno dietético atuaria em sinergismo com o processo inflamatório e
a alteração da mucosa previamente ocorridos para aumentar a absorção do antígeno e
recrutar linfócitos Th1, resultando em lesão tecidual mediada por células.28-30
Foi sugerido que altos níveis de anticorpos da classe IgG contra leite
de vaca são responsáveis por sintomas na intolerância à proteína do leite de vaca
devido à produção de imunocomplexos. Apesar de Firer et al28 terem
demonstrado níveis baixos de IgG específica para leite de vaca (o método ELISA
utilizado não detecta imunocomplexos, e a IgG poderia estar contida neles), não se pode
excluir a possibilidade de formação de imunocomplexos. Por outro lado, imunocomplexos
também têm sido encontrados em muitos controles normais assintomáticos.28
O workshop sobre classificação de doenças gastrintestinais na
infância, realizado em Washington 1998, chegou ao consenso de que a
hipersensibilidade gastrintestinal pode ser exclusivamente mediada por IgE, mista (IgE e
não IgE) e não mediada por IgE, classificando a proctite secundária à proteína
dietética no último grupo.31
Qual seria a conseqüência da inflamação no desenvolvimento da
constipação crônica?
Uma das possibilidades seria aquela apontada por Iacono et al,20
segundo a qual a presença de fissuras anais e a inflamação local promoveriam
defecações dolorosas que levariam à retenção fecal, maior acúmulo e ressecamento das
fezes, agravando a constipação (ciclo dor-retenção-dor).
Outra, seria a alteração da motilidade intestinal, encontrada por
Shah et al22 em oito de 14 crianças que realizaram manometria
anorretal. A motilidade gastrintestinal pode ser modulada pela inflamação ou pela
ativação imune.32 As mudanças na função muscular induzidas pela
inflamação são diferentes entre os músculos circular e longitudinal (foi observado que
o estímulo inflamatório produz diferentes respostas musculares na mesma região
intestinal, isto é, dependendo do mediador inflamatório, poderá haver contração ou
relaxamento da musculatura),33 específicas da região intestinal (submetido ao
mesmo estímulo inflamatório, a musculatura lisa pode ter redução da contratilidade em
uma região intestinal e aumento em outra)32,34,35 e parecem ser independentes
do tipo de estímulo (químico, infeccioso, imunológico) que induz à resposta
inflamatória.32 Além disso, a mudança na contração do músculo liso pode
ser generalizada, ou seja, a inflamação limitada a uma determinada região intestinal
pode ser acompanhada por mudanças funcionais em locais não inflamados adjacentes ou
distantes.32,33
As alterações na contração muscular ocorrem mesmo quando o
infiltrado inflamatório é leve, ou seja, inflamação intensa não é um pré-requisito32,33
e a musculatura é macroscopicamente normal a inflamação é restrita à
mucosa.36
Assim, a contratilidade muscular alterada seria considerada a base para
a origem dos sintomas 32. Possivelmente, o epitélio é o primeiro alvo na
hipersensibilidade alimentar, causando uma alteração estrutural, mas, alterações na
motilidade indicam que o músculo liso também é um alvo nas reações alérgicas
intestinais.37 A sensibilização de nervos aferentes por inflamação local,
conduzindo a hiperalgesia, também pode explicar algumas alterações funcionais, assim
como a interação entre reflexos intestinais, hipersensibilidade e hiperalgesia e
estímulos de origem central, pode ter função na origem dos sintomas na doença
intestinal funcional.38 Apesar de vários estudos experimentais e alguns
em humanos realizados sobre as alterações que ocorrem na musculatura lisa durante
a inflamação, poucas generalizações têm sido feitas.32
Enfim, fica claro que a inflamação pode exercer uma função
primordial na origem da constipação devido à intolerância à proteína do leite de
vaca. Sua participação pode estar restrita ao efeito doloroso da passagem das fezes
através da área inflamada, iniciando o ciclo dor-retenção-dor. Porém, evidências na
literatura demonstrando que processos inflamatórios do intestino são freqüentemente
acompanhados por distúrbios na motilidade, apontam as alterações na motilidade
intestinal secundárias à inflamação não só como um importante fator contribuinte
para a origem do sintoma na intolerância à proteína do leite de vaca, mas também como
um amplo campo de estudo na gastroenterologia e imunologia.
Diagnóstico
História Clínica
Primeiro, deve-se caracterizar a constipação crônica através dos
seus parâmetros principais e verificar a idade de início e se a criança também
apresenta dor abdominal, escape fecal, fissura anal e edema e eritema perianais
concomitantes19,20,39 para, então, tentar determinar a possibilidade de que o
paciente tenha uma intolerância à proteína do leite de vaca que contribui para a
constipação, embora, nas doenças alérgicas crônicas, a história tenha pouco valor
preditivo.40 Perguntar se já foram realizados tratamentos anteriores para a
constipação, quais foram e o resultado obtido19,20,22 para avaliar se o
tratamento instituído foi seguido e o índice de falha terapêutica.
É importante estabelecer o período de tempo entre a ingestão do
leite de vaca e o desenvolvimento dos sintomas,40 a freqüência e a duração
do aleitamento natural e a idade de início e a aceitação da fórmula do desmame.10,20,39
Informações úteis adicionais são história de intolerância à proteína do leite de
vaca prévia manifestando-se sob outras formas (diarréia e má absorção, dermatite
atópica, broncoespasmo recorrente, rinite) e presença de sintomas atuais associados à
provável IPLV.19,20,22,39 Abordar sobre a história familiar de doença
atópica e IPLV nos pais e irmãos do paciente IPLV.19,20,22,39 No entanto, a
história de alergia é pouco comum, tanto na criança quanto na família.41
Exame Físico
No exame físico, alterações devem ser procuradas na pele e sistema
respiratório, para detectar características atópicas, além do sistema gastrintestinal.40
Ao exame do abdome, pode-se identificar distensão, massa fecal acumulada nos quadrantes
inferiores, dor à palpação superficial ou profunda, timpanismo exacerbado e borborigmo.
Na região anorretal, averiguar a presença de lacerações e fissuras anais, edema e
eritema perianais.19,20
Exames Complementares
Podem ser realizados exames que esclarecem quanto ao possível
mecanismo imune, embora estudos laboratoriais sejam de valor limitado para mecanismos não
mediados por IgE.40
Quando reações alérgicas a alimentos induzidas por IgE são
suspeitadas, o teste cutâneo de leitura imediata (prick test) e a dosagem de IgE
específica para o alimento através da reação de imunoensaio (RAST = radioallergosorbent
test) são úteis para indicar se o paciente possui anticorpos IgE para aquele
alimento específico, mas não estabelecem o diagnóstico de alergia alimentar clínica.40
No entanto, observou-se que a maioria dos pacientes com intolerância
à proteína do leite de vaca que eram reatores tardios apresentaram prick test e
RAST negativos.26,29,41
Para o prick test, utiliza-se o extrato do alimento, diluído
1:10 ou 1:20, e uma solução salina e outra de histamina como controles. Se o alérgeno
provoca uma pápula com diâmetro no mínimo 3 mm maior que aquela da solução salina, o
teste é considerado positivo, indicando possível relação entre o alimento testado e a
reatividade do paciente àquele alimento, ou seja, o teste negativo exclui mecanismo IgE,
mas a sua positividade apenas sugere alergia sintomática.40 Os testes devem
ser realizados com leite de vaca total, lactalbumina, caseína e b
-lactalbumina.19-21
O RAST geralmente é considerado menos sensível do que o teste
cutâneo,40 mas um estudo comparando-o ao prick test, em crianças com
dermatite atópica, demonstrou similaridade entre eles quando o RAST com escore ³ 3 foi considerado positivo.42 Para o RAST, também são
utilizados leite de vaca total, lactalbumina, caseína e b
-lactalbumina.21 O achado de um RAST negativo para um antígeno suspeito não
exclui a possibilidade de reação de hipersensibilidade,43 pois níveis
elevados de IgE específica são mais encontrados nas reações do tipo imediato.28
Podem ser solicitadas também a dosagem sérica de IgE total e a
contagem de eosinófilos periféricos marcador insensível, embora sugira a
presença de mecanismo imune quando elevado.19-21,44
Embora os resultados de vários exames laboratoriais inespecíficos
possam ser anormais na alergia alimentar não mediada por IgE, nenhum teste laboratorial
tem sido capaz de identificar alimentos responsáveis por essas reações.40
Anticorpos IgG específicos para o antígeno alimentar geralmente são elevados nos
pacientes com alergia alimentar afetando o trato gastrintestinal, mas não são
indicativos de patogênese específica relacionada ao alimento,40 pois também
são encontrados em indivíduos normais.
A retossigmoidoscopia evidencia mucosa edemaciada e hiperemiada,
característica da colite alérgica,45 e a biópsia retal pode ser feita cerca
de 7-10 cm da borda anal.46,47 As técnicas de coloração podem ser a
hematoxilina-eosina, ácido periódico de Schiff (PAS) e imunoperoxidase indireta.46
Técnicas de PCR e hibridização in situ são úteis para analisar o perfil de
citocinas que são produzidas por células T.48
A microscopia mostra arquitetura das criptas preservadas; células
epiteliais com aspecto cubóide; eosinófilos (> 1; distribuição focal) e linfócitos
intraepiteliais;20,41,47,49 infiltrado na lâmina própria constituído por
aumento difuso no número de eosinófilos (> 6),20,22,41,45-47,49
plasmócitos,45,47 macrófagos, linfócitos,47 neutrófilos e
numerosas células mononucleares contendo IgE.41,45,46,49
Na tentativa de demonstrar alteração da motilidade intestinal, podem
ser realizados o estudo do trânsito intestinal com marcadores radiopacos e a manometria
anorretal. De acordo com Shah et al,22 o estudo do trânsito intestinal
demonstrou atraso nas defecações, com retenção dos marcadores no reto, o que implica
que a alteração de motilidade pode estar presente apenas na região anorretal. À
manometria anorretal, o mesmo grupo observou apenas aumento do tônus do esfíncter anal
externo, o que condiz com o achado do estudo do trânsito intestinal.
Desencadeamento Duplo-Cego, Controlado por Placebo
Se os sintomas resolvem enquanto o paciente está com uma dieta de
eliminação, alguma forma de desencadeamento alimentar é requerida para confirmar o
diagnóstico, especialmente nas doenças crônicas.40
O desencadeamento duplo-cego controlado por placebo é o padrão-ouro
para o diagnóstico de alergias alimentares, de acordo com o grupo de estudo para os
critérios diagnósticos de alergia alimentar da Sociedade Européia de Gastroenterologia
e Nutrição Pediátrica.40,50
O tempo de observação depende do tipo de reação suspeitada. Na
alergia alimentar na qual os sintomas gastrintestinais de início tardio predominam, as
reações aparecem em um período de tempo maior após um teste de desencadeamento.40,50
Os desencadeamentos serão observados sob supervisão médica e
hospitalar, de preferência com a observação objetiva do resultado do teste sendo feita
por pessoal médico, embora isto possa parecer inviável em algumas situações de
manifestação tardia. O alérgeno alimentar será eliminado por sete a 14 dias antes do
desencadeamento nas reações mediadas por IgE e acima de 12 semanas em alguns problemas
gastrintestinais.40
Na constipação, o desencadeamento pode seguir o modelo estabelecido
por Iacono et al.20 Inicia-se com 5 ml de leite de vaca, aumentando o
volume gradativamente e chegando à quantidade habitual consumida pela criança após um
período de três horas. Se nenhuma reação clínica ocorre, o desencadeamento pode ser
continuado em casa, e será descontinuado se aparecerem dor abdominal e/ou lesões
perianais ou não houver defecações após 72 horas do seu início. O teste é
considerado positivo quando os sintomas reaparecem, em geral, 48 a 72 horas após,
autorizando a retirada do leite de vaca da dieta.
Sampson40 propõe um algoritmo para o diagnóstico de
alergias alimentares, que pode ser utilizado para a confirmação de IPLV nas crianças
com constipação crônica (Figura 1).
Tratamento
Uma vez que se estabelece que a constipação é um sintoma de
intolerância à proteína do leite de vaca, a única terapêutica consiste na
eliminação do leite de vaca da dieta.40 A intolerância à proteína do leite
de vaca, em geral, resolve-se ao longo do tempo; conseqüentemente, os desencadeamentos
serão repetidos a intervalos variados.40
ara lactentes, o leite de vaca pode ser substituído por fórmulas a
base de soja ou de hidrolisado de proteína do soro do leite de vaca (caseína ou
lactalbumina). Nas crianças maiores, cuja alimentação não depende essencialmente do
leite, há a necessidade de elaborar uma dieta variada.
Na constipação, os autores têm mantido a dieta isenta de leite de
vaca por cerca de 9 a 12 meses, porém, no desencadeamento, nem todas as crianças estão
recuperadas, apresentando os sintomas novamente,19,20 e, assim, a dieta de
exclusão do leite de vaca pode ser realizada por um período mais prolongado. O ideal
seria repetir os exames complementares durante o tratamento, antes de reintroduzir o leite
de vaca.
Prevenção
Segue a mesma linha da prevenção da intolerância à proteína do
leite de vaca com outras manifestações clínicas: incentivo ao aleitamento natural por
no mínimo 6 meses, além da orientação adequada da dieta do desmame.
Conclusões
Muitas características clínicas e imunológicas têm sido estudadas
em crianças com intolerância à proteína do leite de vaca, mas os resultados nem sempre
são uniformes.29 Assim pode estar acontecendo com a constipação secundária
à intolerância à proteína do leite de vaca. Alguns autores demonstram essa
associação, porém, se é esperado que o grupo de crianças com essa manifestação seja
homogêneo e que o mecanismo imune seja idêntico em todas elas, observações corretas
sobre a sua ocorrência poderão ser interpretadas como duvidosas e os achados como mera
coincidência.29
No momento, permanece o desafio de identificar precocemente essas
crianças, a fim de instituir o tratamento adequado. Enquanto não se estabelece qual o
mecanismo imune e sua possível alteração na motilidade intestinal ou de que
outra forma a reação imune e a inflamação promoveriam o aparecimento da constipação
, o acompanhamento das crianças constipadas por IPLV permanecerá insatisfatório,
pois sem um critério diagnóstico uniforme que poderia ser elucidado a partir do
entendimento dessa questão inicial , excessos e faltas serão cometidos, tanto no
diagnóstico quanto no tratamento ou, ainda, poderemos manter indefinidamente em
último plano a relação constipação- intolerância à proteína do leite de vaca.
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